Saturday, February 5, 2011

Como voluntariar para um doente de câncer

Texto: Maria Da Luz McAdams.

"Quando diante de emoções extremas, a tarefa principal
da pessoa que cuida de outrem é servir de esponja emocional.
Você não precisa conversar, dizer qualquer coisa, dar
conselho, ou tentar mudar nada. Simplesmente esteja presente
e absorva a dor, o medo e a mágoa, assim como uma esponja.
Tudo que a outra pessoa deve estar precisando é de
alguém com quem possa chorar, expressar seus sentimentos e
daí, consumí-los ou dissipá-los. Faça-se então presente e
compartilhe... Não tema a pessoa, nem a sua dor ou raiva.
Consinta que o que tiver que vir à tona, venha. Não tente fazer
com que ela se sinta melhor. Não desconverse ou deprecie os
seus sentimentos e preocupações, nem tente encontrar soluções
banais para os seus conflitos. Sirva simplesmente de esponja. Isso pode
nos fazer sentir impotentes e inúteis, por não estar fazendo
nada. Todavia, a verdade é que em situações crônicas, nada pode
ser feito mesmo, exceto vivenciá-las da melhor maneira possível.
- Ken Wilber em "Grace and Grit."

Não existe ninguém no mundo que não conheça, pelo menos, uma pessoa com problemas de câncer. Nos Estados Unidos, por exemplo, um em cada três indivíduos sofre dessa enfermidade durante a sua vida. Ela afeta pessoas de todas as idades, raças, regiões geográficas e condições financeiras. Não é difícil reconhecer, portanto, como mais cedo ou mais tarde todos nós havemos de lidar com essa doença.

Qualquer um se amedronta quando sabe que tem câncer. Tememos as mudanças nos relacionamentos, a perda do trabalho, a mutilação do nosso corpo, a dor e a própria morte. Até as mínimas alterações, mesmo insignificantes, podem nos causar alarme. Como voluntários, devemos ficar atentos, sintonizados para com essas sensibilidades, proporcionando legitimidade, apoio e compaixão pela dor alheia.

Pois bem, não existe um caminho certo e simples de como ajudar uma pessoa com câncer, isto porque cada paciente se encontra numa situação única. Entretanto, vejamos aqui algumas diretrizes a serem consideradas:

- Mantenha as linhas de comunicação abertas. Quanto a tocar no assunto da doença ou não, permita que o próprio paciente determine quando e quanto falar a respeito. Ofereça apoio, assistência e encorajamento no uso de todos os recursos disponíveis para o paciente.

- A pessoa nota sempre desconforto na outra, por isso, fique tranqüilo e à vontade, se de repente houver silêncio entre vocês. O silêncio pode proporcionar clareza aos pensamentos.

- Tente sempre envolver a pessoa em atividades que lhe sejam de interesse. Todavia, use bom senso, não subestimando os efeitos de sua enfermidade, nem sendo superprotetor.

- Demonstre curiosidade e entusiasmo pelo que a pessoa tem a dizer. Evite distrações tais como checar a hora, assistir televisão, folhear revistas etc.

- Tente colocar-se no lugar do paciente, ter empatia por ele. Isso proporciona um ponto de vista diferente. Ouça para compreender, não necessariamente para mudar a pessoa, resolver problemas, ou convencê-la a sentir-se melhor.

- Trate a pessoa como gente, não como um enfermo. Paciente nenhum é a sua enfermidade. Tudo que vemos ou percebemos pode na essência, não ser exatamente o que aparenta ser.

- Pare de falar! É impossível ouvir se você fica tagarelando o tempo todo. Considere as razões porque Deus nos deu 2 ouvidos mas somente uma língua...

- Aceite a pessoa como ela era e nunca deixou de ser, apesar da doença. Permita que continue a ser ela mesmo. Avalie as suas mensagens, não a pessoa. Evite julgá-la, controlá-la ou manipulá-la.

- Evite também comandos ou imperativos tais como: "Lute pela vida! Você vai ficar bom! Não esmoreça por falta de esperança! Aceite o que não pode ser mudado... Só morre quem já viveu..."

Na dor, muita gente prefere não ouvir dizer: "É vontade de Deus... Sei muito bem como você está se sentindo... Você vai ficar bom... Não se preocupe que vai dar tudo certo... " Esse tipo de clichés não ajuda nada. É preciso respeitar o sofrimento alheio, tentando não julgar ou sugerir soluções banais. Cada indivíduo tem uma maneira diferente de reagir à enfermidade. Para evitar ressentimentos, não deprecie a dor dos outros.

Na verdade, o voluntário não necessita oferecer soluções concretas para já estar ajudando. A simples capacidade de ouvir a pessoa é em si uma valiosa forma de servir. A propósito, ouvir é a melhor maneira que existe de se dar. Ouvir é o ingrediente principal do bem-querer... Aprendamos, portanto, a distinguir o poder da palavra e do silêncio. Existe muita eloquência num simples olhar.

No servir, é recomendável também lembrar de socorrer na hora da necessidade. Ajudar alguém depois de preciso, é ajudar pela metade... É como dar açúcar a morto. Portanto, seja assíduo no contato ou convívio, através de visitas, telefonemas, cartas, lembretes, troca de mensagens, artigos, convites para um cinema, um passeio, etc.

Na minha experiência, observo que a coisa mais valiosa (e difícil) que podemos compartilhar com alguém é os nossos sentimentos. Para muita gente é mais fácil contribuir com dinheiro, pertences ou idéias do que compartilhar emoções. O caminho mais curto de se aprender a repartir os sentimentos é através da conversa. Thomas Moore, um dos meus autores prediletos, diz que um bom bate-papo é o ato sexual da alma. Através desse intercâmbio se torna possível dispor-se emocionalmente. E, na doença crônica, esta disponibilidade facilita o convívio e a atuação do papel de pára-raio, através do qual absorvemos a dor alheia, favorecendo assim o seu alívio.

Importante também é não esquecer dos familiares! Considerando que poucos reconhecem e se sensibilizam com a dor daqueles que convivem com o sofrimento alheio, é necessário dar ênfase a isso. É claro que é sempre difícil para o enfermo; todavia, o convívio dos membros da família com a doença crônica do seu ente querido pode ser tanto ou mais desafiante ainda.

Da mesma forma, é aconselhável que o voluntário fique sempre em contato com o medo que ele mesmo possa, algum dia, encontrar-se na mesma situação... Nas minhas experiências pessoais, tento encarar essa possibilidade para refletir, usando os meus anseios como metáforas para o desenvolvimento de mais compaixão, não só pela dor dos outros, mas pelas minhas também. Para mim, uma das grandes oportunidades oferecidas pelo trabalho voluntário é testemunhar a capacidade humana de crescer e superar a sua própria tragédia.

Repetindo, a maneira mais segura de lidar com um paciente é colocar-se disponível para ouví-lo e atendê-lo com o coração... O trabalho voluntário em si reforça a idéia de que a maneira mais edificante de servir é reconhecer o valor de cada vida. Quando nos aproximamos de um paciente a mensagem que levamos conosco é: "Estou aqui para servi-lo de livre e espontânea vontade, não por obrigação, " o que se traduz em respeito e reverência pela vida alheia.

Um dos momentos mais felizes para um voluntário, é encontrar um paciente ou outro que se desperta para o fato de que o seu valor não está naquilo que ele pode se tornar (ex. mais saudável, bonito ou inteligente), mas sim naquilo que já é. Afinal, o propósito maior em servir é honrar a condição humana que nos iguala diante da alegria ou da tristeza, da riqueza ou da pobreza, da saúde ou da doença. E é através do trabalho voluntário que prestamos a outrem - e a nós mesmos - o mais dígno tributo.


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